Fim dos programadores?
TL;DR: Não. Definitivamente não é o fim!
Tem muito profeta do apocalipse espalhando aos quatro ventos que a nossa profissão já era. Que daqui a pouco ninguém mais vai precisar de programador. Que a IA vai fazer tudo sozinha enquanto a gente procura outra coisa para fazer da vida.
Isso está longe de ser verdade.
Agora, uma coisa é fato: a profissão vai mudar. E muito.
Com certeza não vamos continuar fazendo as mesmas coisas que fazemos hoje.
O trabalho que já acabou
O trabalho mundano não está mais com os dias contados. Já foi — só faltou avisar para algumas pessoas.
Aquele código repetitivo, a tela de cadastro número quinhentos, o CRUD que você escreve de olhos fechados, a integração que é sempre igual e só muda o nome dos campos. Isso a máquina já faz, e faz rápido.
E não é só o trabalho braçal
Quem ainda acha que a IA só serve para completar uma função ou escrever meia dúzia de testes está olhando para o retrovisor.
Ela já vai muito além disso. Já escreve código de qualidade, bem organizado, e não estou falando de um trecho aqui e outro ali. Estou falando de módulos inteiros.
Integrações. Consumir ou criar APIs. Services. Regras de negócio. Com a orientação certa, ela dá conta de tudo!
A palavra-chave aqui é orientação. Guarde ela, porque vamos voltar nela.
Não tente ganhar da empilhadeira
Tentar competir com a IA neste momento é burrice. Sendo bem direto: você não é mais páreo para ela.
Na velocidade, ela ganha de você. Ganha de mim também. Ganha de qualquer um de nós.
Brigar com isso é perda de tempo. Ficar tentando provar que você digita melhor que a máquina é como tentar provar que você carrega mais peso que uma empilhadeira.
Parabéns pelo esforço, mas qual seria exatamente o objetivo?
Use a seu favor.
Qualquer programador a essa altura já deveria ter percebido isso. E deveria ter percebido também o outro lado, que é o óbvio: você ainda é necessário. E muito!
O que continua sendo nosso
Se na velocidade a gente perde, tem uma coisa que joga a nosso favor: a criatividade.
Não se engane. LLMs parecem inteligentes, e o marketing das grandes empresas trabalha o tempo todo para reforçar essa impressão em todo mundo. Mas o fato é que elas não são inteligentes. São incapazes de criar. E é justamente isso que nos torna necessários.
As LLMs são ferramentas incríveis. Mas continuam sendo motores estatísticos aplicados à linguagem, extremamente sofisticados, e param por aí! Inclusive, já bateram no teto, como contei no artigo O teto das LLMs e o que ninguém viu chegando.
Se você acha que o seu cérebro só é capaz de estimar a próxima palavra com extrema exatidão, então ok. Você deve mesmo se preocupar com as LLMs. Seus dias muito provavelmente estão contados.
Mas se você sabe (e deveria saber) que o seu cérebro é superior em inteligência, em capacidade criativa, em adaptação, então você sabe também que as LLMs são o que são. Ou pelo menos acredita nisso, e aí já vira questão de fé, se você não se deu o trabalho de estudar e tentar entender como elas funcionam.
Elas não enxergam o todo como você. Não pensam em alternativas. Não encontram aquela solução criativa, rápida, barata e com menos esforço que só aparece quando alguém entende de verdade o problema.
Isso continua sendo trabalho nosso.
Programador nunca vendeu código
A diferença é que agora você não produz e entrega mais linhas de código.
Você está virando um construtor. Alguém que constrói, entrega e gerencia soluções.
Pode parecer só uma troca de nome, mas não é. Linha de código nunca foi o produto. Era o meio. Por muito tempo o meio tomou tanto tempo que a gente confundiu as coisas e passou a achar que o nosso trabalho era digitar.
Nunca foi.
O cliente continua querendo a mesma coisa de sempre
O cliente quer solução. Sempre quis.
Ele nunca quis saber qual linguagem você usou, quantas classes você criou ou quantas horas passou olhando um erro no terminal. Ele quer o problema resolvido e o sistema funcionando.
E o que de fato importa para você é isto: ele continua precisando de você.
Pense numa transportadora. O dono dela quer transportar cargas. Esse é o negócio dele, é nisso que ele é bom e é nisso que ele quer continuar focado. Ele não quer abrir um editor de código, não quer escrever prompt, não quer aprender o que é deploy.
Ele precisa que alguém faça o software funcionar. E vai continuar pagando por isso.
Do mesmo jeito que continua precisando da contabilidade, do financeiro, do jurídico.
O fim do contador (só que não)
E por falar em contabilidade, tem um exemplo muito bom acontecendo agora.
A Reforma Tributária do Consumo, que está em andamento, prevê entre outras coisas a chamada Apuração Assistida, inclusive já com APIs disponibilizadas pelo governo.
A lógica é simples. Tudo virou eletrônico: NF-e, NFC-e, NFS-e e todos os outros documentos fiscais. Tudo isso chega aos servidores do Estado. Ou seja, o governo já tem toda a informação necessária para fazer o óbvio: calcular o imposto devido.
Em outras palavras, o próprio governo vai calcular quanto você deve de impostos com base na sua movimentação.
Pronto. Alguns menos atentos já decretaram: é o fim da profissão de contador!
Como se um contador fizesse apenas isso, calcular imposto. Rsss.
O trabalho do contador vai muito além. Planejamento tributário, orientação na tomada de decisão, enquadramento, conferência, acompanhamento do negócio, a conversa com o empresário quando a coisa aperta. O cliente vai continuar precisando dele.
Soa familiar?
Quem de fato está em risco
Agora, tem o outro lado. E é bom ser honesto sobre ele.
Aquele profissional medíocre, que se limita a calcular imposto, esse sim pode estar em risco. A máquina vai fazer isso por ele, de graça e sem errar a alíquota.
Com a gente é exatamente a mesma coisa.
Os programadores medíocres, os injetores de código, os programadores de CRUD podem de fato estar em risco. Isso a IA faz de olhos fechados, com qualidade e velocidade superiores.
Mas os programadores realmente bons, os que se dedicam a entender as regras de negócio que estão implementando, os que tentam entender o problema do cliente, os que pensam em solução em vez de simplesmente em linhas de código, esses continuam sendo necessários. Com certeza.
Lembra da palavra-chave? Orientação. A IA dá conta de tudo com a orientação certa. E quem dá essa orientação é justamente quem entende do negócio e do problema.
Na etapa software, ainda somos nós
Toda empresa funciona como uma corrente de etapas. E em cada etapa tem alguém responsável por ela.
Na etapa software, somos nós. E vamos continuar sendo, enquanto existir software.
A ferramenta muda. Já mudou várias vezes: do cartão perfurado para o terminal, do terminal para a IDE, da IDE para a IA. O que não muda é que alguém precisa entender o problema, desenhar a solução, colocar de pé, garantir que funciona e cuidar dela depois.
Esse alguém é o programador.
A parte boa que quase ninguém comenta
O nosso trabalho vai mudar muito. Vai ficar mais sofisticado, e a nossa produtividade vai se multiplicar dezenas de vezes.
Soluções que antes eram inviáveis passam a ser possíveis. Não por falta de capacidade técnica, mas porque o custo simplesmente não fechava. Tempo demais, gente demais, dinheiro demais para o resultado que entregava.
Essa conta mudou.
Aquela ideia na gaveta
Sabe aquela ideia esquecida na gaveta, deixada para "um dia, no futuro"?
Pois é. Agora talvez dê.
Aquele backlog que sufocava o time agora anda. E anda rápido. E ainda sobra tempo para as ideias abandonadas por falta de tempo. Ou por preguiça mesmo, vamos ser sinceros!
Quantas vezes a gente fugiu de uma tarefa, ou empurrou para a semana seguinte (e para a outra, e para a outra), porque ela estava fora do nosso domínio? Porque ia exigir horas de pesquisa, leitura de documentação, tentativa e erro, e no final o esforço não compensava o resultado?
Uma biblioteca nova. Uma linguagem que você nunca usou. Um protocolo esquisito de um fornecedor. Aquele relatório que o cliente pediu e que ninguém queria encarar.
Essa barreira caiu. O custo de aprender e experimentar despencou. O que era "não vale a pena" virou "por que não?".
Eu escrevia muito pouco e ultimamente tenho escrito muito mais. Eu escrevo bem, mas sou preguiçoso! A LLM me ajudou nisso também. Hoje, abro um editor de texto qualquer, despejo ali minhas ideias e pensamentos e depois dou uma orientação: organize isso em um texto com começo, meio e fim. Este artigo, por exemplo, foi escrito dessa forma. Acho que eu levaria uma manhã inteira escrevendo, organizando, lendo e relendo até ficar bom. É mais um produto que consigo entregar agora e que antes deixava na gaveta!
Não é teoria. É a minha rotina.
Eu sempre trabalhei em vários projetos ao mesmo tempo. Mas agora a coisa ficou surreal.
Antes, quando eu dizia que estava em vários projetos, na prática eu era responsável por eles. Vez ou outra algum precisava da minha atenção: mexer no código diretamente, ajudar alguém da equipe, participar de uma negociação com o cliente. Era sempre pontual. E entre um e outro, tinha sempre aquele projeto "da vez", o que realmente tinha o meu foco.
Hoje, quando digo que estou trabalhando em vários projetos, é literal.
Neste momento estou focado em pelo menos dois projetos novos, grandes e complexos, andando a todo vapor. E ainda sobra tempo para tutelar os antigos. O backlog quase zerou. As tarefas entram e saem no mesmo dia.
O meu dia a dia é assim: duas janelas lado a lado, dois agentes, dois projetos sendo construídos ao mesmo tempo.
Já tentei com três e quatro janelas. Não deu. Não consegui dar as instruções e os prompts adequados para todos. Cheguei a confundir as janelas e mandar instrução de um projeto no outro (rsss).
Mas repare: a limitação foi minha, não dos agentes!
Com dois eu me sinto confortável e a coisa flui muito bem. Às vezes tenho quatro ou cinco rodando ao mesmo tempo, mas para coisas pontuais. Não faço disso rotina. Meu foco ainda cabe em dois.
E o mais importante: a qualidade para o usuário final aumentou. Entregamos mais, melhor e mais rápido.
No fim das contas, o cliente está satisfeito. E continua pagando pelos nossos serviços.
Então, acabou?
Não acabou. Mudou.
Quem se via como digitador de código, esse sim, vai ter dificuldade. Quem entende que o trabalho sempre foi resolver problema vai ter mais ferramentas, mais alcance e mais oportunidades do que jamais teve.
A pergunta que fica não é se programador vai continuar existindo.
A pergunta é: você vai continuar entregando linhas de código ou vai começar a entregar soluções?
Tem uma ideia parada na gaveta?
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